Seminário reuniu atingidos pela crise climática em todo o mundo e apoiadores da reconstrução no RS.Foto: Joice Lani/MAB

O Rio Grande do Sul se tornou, em maio de 2024, um dos piores retratos da crise climática que já atinge, indiscriminadamente, o mundo inteiro. Não é possível passar por este momento tão necessário e favorável para discutir as mudanças climáticas sem voltar os olhos ao povo gaúcho, que mesmo um ano e meio depois da última enchente, aguarda e luta por reparação. No Estado, foram mais de 470 municípios afetados, resultando em 184 mortes, milhões de pessoas atingidas e cerca de 100 mil casas destruídas.

A realidade da população atingida pelas enchentes no Rio Grande do Sul, e por outros eventos climáticos no mundo, foi debatida em um seminário realizado na tarde do último sábado (15), durante a Cúpula dos Povos, em Belém (PA). O encontro oportunizou partilhas de atingidos de Cuba, Colômbia e África do Sul, além da participação de parceiros da luta pela reconstrução do RS e reparação dos atingidos.

Como ponto de partida para as discussões, Andreia Soares, do Movimento dos Atingidos por Barragens do Rio Grande do Sul, iniciou apresentando a situação dos atingidos gaúchos. Ela relatou que o Estado possui mais de 10 mil barragens e explicou o contexto das chuvas que atingiram a região em maio de 2024, apontando a relação direta com os rios voadores que descem da Amazônia em direção ao sul do continente.

Andreia Soares apresentou um diagnóstico dos atingidos do Rio Grande do Sul que ainda lutam direitos básicos como moradia.Foto: Joice Lani/MAB

Andreia destacou que no Vale do Taquari – a região mais afetada em maio de 2024 – foram registradas seis enchentes entre 1941 e 2008 (em 67 anos), e esse também é o número de inundações nos últimos 14 anos. O agravamento da crise climática fez com que, entre 2011 e 2025, a região passasse por outras seis grandes enchentes que atingiram especialmente as populações das periferias. “86% da população atingida recebia até dois salários mínimos antes da enchente e esta situação só piorou, tornando os vulneráveis ainda mais vulneráveis”, realçou ela.

A mitigação da crise climática em Cuba e África do Sul 

“Eu via as cenas de Porto Alegre em 2024 e agora tenho certeza que vivemos o mesmo fenômeno, resultado da crise climática”, analisou a cubana Marilín Peña Pérez. A atingida contou que este ano as inundações afetaram no país entre três a cinco milhões de pessoas, e ressaltou que, graças ao sistema de proteção e prevenção aos desastres climáticos implementado em Cuba, a enchente não deixou nenhuma vítima. Somado a este sistema há também uma intensa campanha de conscientização em todo o país: “Desde as crianças até as pessoas adultas em Cuba, sabem exatamente o que devem fazer durante um furacão, isso por causa de um processo de educação e formação com a população”, explicou a cubana.

A realidade na África do Sul é diferente, como relatou Genny Ngende, da International Rivers. A falta de estrutura afeta saúde, educação, saneamento e todos os serviços básicos à população, em um contexto em que qualquer política pública é raridade. Genny lembrou que a África tem 54 países e que cada um tem a sua própria forma de reagir à crise climática, especialmente em situações extremas. “Entretanto, há algo em comum: todos são sempre reativos, e nunca preventivos”, ressaltou.

A sul-africana Genny Ngende falou sobre a ausência de estrutura e de políticas para o enfrentamento de eventos extremos no país e no continente. Foto: Joice Lani/MAB

A sul-africana pontuou também o alto índice de migrações geradas pelos eventos extremos no continente e destacou que acredita na organização coletiva como forma de enfrentamento à crise: “Na International Rivers temos feito muitas coisas em campo, ensinando e aprendendo com as comunidades sobre como mitigar a crise climática. Uma das coisas efetivas que temos visto é organizar os movimentos em plataformas internacionais, porque discutimos sobre uma mesma crise”, declarou.

A parceria com a Fundação Banco do Brasil 

O seminário foi executado em parceria com a Fundação Banco do Brasil (FBB), como parte do projeto de cooperação estabelecido com a Associação Nacional dos Atingidos por Barragens (ANAB). Marco Aurélio Cirilo Lemos, representou a Fundação Banco do Brasil no evento e realçou a importância da parceria para garantir que os recursos disponibilizados pela instituição sejam aplicados a partir de uma outra lógica.

“A Fundação Banco do Brasil quer estar próxima, escutar as pessoas em seus territórios, suas demandas e anseios. Acreditamos na soberania alimentar e energética como forma de propiciar a autonomia das comunidades, e por isso propomos uma reconstrução que não faça do mesmo jeito, mas que seja cuidadosa com o meio ambiente”.

Especificamente sobre o Rio Grande do Sul, Marco citou o esforço da FBB neste último ano, desde as enchentes, para o investimento de 50 milhões dos recursos da fundação para o Estado. Além de outros 25 milhões que estão em vista para o apoio à economia solidária. Ressaltando a importância da parceria histórica com o MAB, que já vem desde 2011, Lemos reafirmou o compromisso de reconstruir ‘com’ e não ‘para’ as pessoas, colocando a prioridade na transição energética, como forma de alcançar a sustentabilidade e dignidade das pessoas atingidas.