A Associação Nacional dos Atingidos por Barragens (ANAB) atua em parceria com organizações locais para o processo de seleção das pessoas beneficiadas e para a realização das atividades propostas, como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que organiza as populações atingidas por barragens e crise climática em todo o Brasil por meio de grupos de famílias. A partir da relação com o MAB, uma das iniciativas beneficiadas pelo projeto é a cozinha solidária Periferia Feminista, no Morro da Cruz, em Porto Alegre, que irá receber um sistema de geração fotovoltaica de energia elétrica e uma placa termossolar.

“Isso vai fazer uma grande diferença para nós no trabalho, porque hoje a conta da energia elétrica é um dos nossos custos fixos maiores. Atualmente vivemos do apoio de doações, então essa parceria vai fazer muita diferença”, destacou Any Moraes, coordenadora da Periferia Feminista e da Marcha Mundial das Mulheres durante a manhã da última quarta-feira (17), no encontro de capacitação com o público da cozinha para a instação das placas.

A composição de beneficiários por meio de grupos melhora a compreensão do processo, cria um ambiente de mútua cooperação e de fiscalização entre os participantes das ações realizadas. Para a definição dos beneficiários, a ANAB considera a situação de vulnerabilidade social, priorizando aqueles locais que enfrentam perdas significativas devido à calamidade que impacta o estado do Rio Grande do Sul e, no caso da cozinha solidária, que desenvolvem ações de ajuda humanitária para os atingidos.

O processo de capacitação envolveu centenas de pessoas nos últimos meses, por meio de encontros realizados em âmbito comunitário em torno de tecnologia social para produção agroecológica e quintais produtivos e de tecnologia social focada em energias renováveis e transição energética. Além da apresentação das tecnologias sociais desse projeto (aspectos conceituais e técnicos), ao longo do curso também foram discutidos temas pertinentes ao cotidiano da comunidade atingida, especialmente com relação aos processos de resiliência e reconstrução diante de eventos climáticos extremos. Junto ao processo de capacitação e definição de beneficiários estão sendo feitas visitas técnicas da equipe local que fará a avaliação da adequabilidade e possibilidade da implementação da tecnologia social de quintais produtivos e/ou unidade de produção de energia. As equipes locais são compostas por mobilizadores locais e técnicos de campo, que atuam na mobilização comunitária e no mapeamento e organização de grupos de atingidos, incentivando a participação e preparando a organização para a implementação das atividades, além da prestação de suporte técnico na implantação das tecnologias sociais, garantindo a correta execução das ações e capacitação prática dos beneficiários.

O próximo passo do projeto é, à medida que as pessoas sejam capacitadas e recebam a aprovação técnica (com os devidos ajustes quando necessário), inicia-se o processo de instalação das unidades.

Produção de energia

Com relação às unidades de produção de energia, esse projeto desenvolverá a instalação de dois tipos de tecnologias. A primeira é a produção de eletricidade por meio da instalação de painéis fotovoltaicos, com potência instalada de 3,66 kwp cada, capaz de produzir uma quantidade de eletricidade suficiente para o consumo de uma unidade familiar por 20 anos. Em segundo, a instalação de unidades termossolares capazes de aquecer água suficiente para substituição do chuveiro elétrico e aquecimento da água para a cozinha. Ambas as tecnologias são instaladas no telhado da casa beneficiada. A unidade termosolar vem acompanhada ainda de reservatório de água para manter o equipamento operando mesmo em dias de desabastecimento de água.

Ambas tecnologias dialogam diretamente com as expectativas relacionadas à sustentabilidade ambiental, seja na produção de alimentos, seja na produção de energia, todas com o efetivo engajamento das famílias no processo de estudo, organização, construção e manutenção de cada unidade. Serão toneladas de alimentos produzidos anualmente. No âmbito das unidades de produção de energia, estima-se uma produção anual de 460 mil kwh, totalmente sustentável e gratuito, um processo simultâneo de transição tecnológica e econômica.

Essa perspectiva também foi abordada pela coordenadora da cozinha solidária durante o encontro: “é uma tecnologia social dentro da periferia organizada pela comunidade e isso para nós é muito importante. Nós já temos a captação da água da chuva para irrigar a horta e também fazemos a fossa ecológica, que é vinculada à nossa cozinha por conta da inexistência também do saneamento aqui neste local. Agora as placas vão compor esse ciclo e para nós vai ser muito importante, poder ser uma um espaço também de formação e educação sobre as alternativas que cuidam do meio ambiente”, apontou Any.

Em relação a atividade de capacitação e educação ambiental propostas também pelo projeto, é desenvolvida de maneira transversal e complementar ao processo de capacitação local, iniciado antes da instalação das tecnologias sociais. Em cada ocasião, é realizada a troca de experiências com relatos dos participantes, construção de reflexões e apresentação dos resultados pretendidos – e depois alcançados – com a implantação das tecnologias sociais.